quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Dor

Cheguei a duas conclusões inusitadas agora há pouco: percebi que filosofia e dor são incompatíveis e também que a dor tem o estranho poder de causar ilusões de ótica.
Trocando em miúdos, posso dizer, inicialmente, que a filosofia tem pretensões de universalidade enquanto que a dor somente é dor singularmente. A dor é avessa a todo desindividualizar. Compreendo sempre precariamente a dor dos outros, pois tenho em mente apenas a minha própria dor. Isto, no entanto, não me desresposabiliza do cuidado com quem sofre. Em minha cabeça, nós, seres humanos, irmanamo-nos na dor e na resistência que a ela opomos, quer dizer, na compaixão. Minha compaixão, entretanto, é parcialmente cega: sei que o outro – ou a outra – sofre e que o sofrimento é ruim, mas não sei a sua medida exata. Felizmente, reitero, não é necessário saber para agir...
Ademais, penso que ninguém discordará do meu segundo insight: quando a dor me lancina o mundo parece pequeno, ao passo que a parte de mim que dói adquire dimensões gigantescas. O pedacinho de meu corpo – ou de minha alma – que me aperreia é inversamente proporcional ao mundo exterior.
Dei-me conta dessa última “verdade” ao sair da dentista: uma dor excruciante no meu segundo molar inferior do lado esquerdo da boca me torturava. Ao voltar para casa, de ônibus, sentei-me ao lado de um rapaz que lia qualquer coisa. Quer dizer, ao lançar rapidamente um olhar para o objeto que ele manipulava, tive a impressão de se tratar de um dicionário escolar ou de uma pequena bíblia. Contudo, após alguns minutos a dor ofereceu-me uma breve trégua e naquele momento voltei a observar o livro carregado pelo jovem ao meu lado. Que surpresa a minha ao perceber as suas dimensões bem avantajadas. Compreendi a armadilha em que caí devido à dor que me compungia o juízo.
Jefferson Tadeu 10/01/2008

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