sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Prisão perpétua

Há criminosos a quem deve ser vetado para sempre a participação na sociedade civil. Quem, mais esxatamente? Qualquer um que tenha atentado contra a vida.
Creio até que é possível que se arrependam. De fato, às vezes é o que ocorre. No entanto, esse tipo de criminoso não pode nos convencer apresentando-nos como fiador apenas a si mesmo. Não nos devemos obrigar a assumir o risco de lhe conceder a liberdade, porque ele mesmo já assumiu o risco de perdê-la quando executou a ação criminosa.
Mesmo na hipótese de que o criminoso esteja completamente arrependido (o que nunca saberemos ao certo) a sociedade civil não pode ser penalizada ao tê-lo entre os demais cidadãos. Um estuprador arrependido? Um estuprador curado? Quem pagará para ver? Se quer se retratar, que trabalhe de graça na prisão até morrer.
É óbvio que algumas pessoas podem se recuperar. Mas em alguns casos é arriscadao demais a aposta nessa transformação. É lógico que o meu discurso estabelece uma hierarquia, uma escala de gravidade dos delitos. É inevitável. Insisto: crimes que atentam contra a vida devem ser combatidos com a extinção da vida civil dos seus autores. Outros tipos de crime não devem ter penas tão severas, naturalmente.
Um exemplo de ação abjeta que deve ser exemplarmente punida é a do famoso crime do colarinho branco (cometido exclusivamente por diplomados). Numa canetada são definidos - para o mal - os destinos de multidões. Pena merecida? Confinamento até o fim da vida. Como disse antes: é arriscado demais permitir a um pústula que se imiscua novamente na vida pública, por mais arrependido e santo que tenha se tornado. Santos e arrependidos, aliás, prezam bastante a culpa que sentem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Idéias

As idéias não são algo evanescente: elas jamais serão coisas destituídas de concretude. Por elas, alguns morrem e, às vezes, matam. (In) felizmente, a maioria de nós não vai tão longe para defendê-las: nós costumamos apenas rir e chorar por e com elas, o que não é pouco.

Filosofar

A atitude filosófica é mais do que apresentar argumentos para convencer os outros; é, na verdade, ser coerente o suficiente para convencer-se a si mesmo diante de bons argumentos, mesmo que demovam crenças desde há muito enraizadas; é, ainda, manter-se humilde diante da possibilidade de que os argumentos, por melhores que possam parecer, podem ser errados.

Biógrafo

Para ser biógrafo é preciso ter - não apenas isto, é claro - discernimento no uso dos adjetivos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A verdade de Drummond


A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)


A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.

Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

Urbanidade

Uma pessoa civilizada, vitoriana, não consegue confessar o desejo de matar alguém. Ela usa um eufemismo, então: "por mim, fulano nem sequer teria nascido".

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Domingo


O domingo, à tardinha, é um precipício. Daí a vertigem.

Pirandello



Não sei por que sorte de mecanismo psíquicos veio-me à mente agora há pouco a lembrança de uma série de imagens do livro Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello (1867-1936). Leitura antiga. Já se vão uns bons quatro anos desde que o li.

Não traçarei, nem em linhas gerais, detalhes da trama. É importante que cada leitor enrede-se sozinho nas malhas surpreendentes da narrativa. Recomendo a leitura deste livro porque nele se delineia, de modo leve, porém profundo, questões de caráter filosófico (ou seria sociológico?) da maior relevância, tais como, por exemplo, o problema da identidade. Quem somos nós, afinal? Esta questiúncula básica se nos apresenta tão logo findemos o livro. E somos nós mesmos que nos perguntamos, de maneira totalmente original, que(m) diabos somos nós.

Aliás, algo me diz que este problema atravessa a obra de Pirandello. Lembro-me agora de leituras ainda mais remotas. Em Seis personagens à procura de um autor e O Falecido Mattia Pascal, o escritor italiano não nos parece fazer outro questionamento senão: somos nós o papel que ocupamos na sociedade em que vivemos? Somos algo além ou aquém disto?

Esse problema mui árido, demasiadamente deprimente, assaz insosso, é revestido nestes textos de um quê que nem sei dizer direito; um quê temperado por um humor agudo. Por esta razão, ou justamente pela sua falta, seus textos extasiam e nos pendulam ora para a euforia, ora para a angústia.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Érico Veríssimo e a universidade



Érico Veríssimo é um dos escritores de que mais gosto. Tive a felicidade de ter o contato com ele ainda na adolescência, pois meu pai possuía a coleção de todas as suas obras. Passei momentos de intensa emoção ao acompanhar leituras como "Incidente em Antares", "Olhai os Lírios do Campo", "México", "O Senhor Embaixador", "Clarissa" e os incomparáveis volumes de "O tempo e o vento". Um mestre. Por toda a minha vida levarei em minha mente as excelentes histórias e ensinamentos que jorram de seus livros.
Tamanho era o seu talento que, mesmo tendo apenas o curso secundário, dava aulas no Mills College (Oakland, Califórnia) de Literatura e História do Brasil. No nosso país, porém, ele jamais poderia lecionar numa universidade. Este fato me faz pensar que nos concursos para docente nas universidades públicas brasileiras deveria haver espaço para pessoas como Érico, desde que passassem por um concurso público rigoroso, inlusive disputado contra doutores. Afinal, como ouvi certa vez da boca do autor do colossal O Romance da Pedra do Reino (que, aliás, também lecionou em turmas formadas por alunos com mais titulação do que ele), há doutores que não são doutos e doutos que não são doutores.

Crônica de Machado de Assis




Texto-fonte:
Obra Completa de Machado de Assis.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994.

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 02/07/1883 a 04/01/1886.

http://portal.mec.gov.br/machado/arquivos/html/cronica/macr10.htm


5 de outubro

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico, a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.

Estava à porta do espiritismo; a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.

Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d'alma, que, se me fosse dado ir em espírito à sala da Federação, assistir à conferência, jurava converter-me à doutrina nova.

De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho, a ver se me via, e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrara na sala da Federação.

Lá não vi ninguém, mas é certo que a sala estava cheia de espíritos, repimpados em cadeiras abstratas. O presidente, por meio de uma campainha teórica, chamou a atenção de todos e declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu à tribuna, traste puramente racional, levantaram-lhe um copo d’água hipotético, e começou o discurso.

Não ponho aqui o discurso, mas um só argumento. O orador combateu as religiões do passado, que têm de ser substituídas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepções delas não podem mais ser admitidas, por não permiti-lo a instrução do homem; tal é, por exemplo, a existência do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a última e definitiva.

Depois, para que não dessem por mim (porque desejo uma iniciação em regra), esgueirei-me por uma fechadura, atravessei o espaço e cheguei a casa, onde... Ah! que não sei de nojo como o conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer é verdade pura, e ao mesmo tempo a prova de que as conversações recentes não limpam logo o espírito, de certas ilusões antigas.

Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por alguém, esse alguém que saísse e mo restituísse. E vi que a minha cara ria, que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas mãos abriam uma caixa de rapé, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a minha voz.

— Já lhe restituo o corpo. Nem entrei nele senão para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a sós...

— Mas quem é você?

— Sou o diabo, para o servir.

— Impossível! Você é uma concepção do passado, que o homem...

— Do passado, é certo. Concepção vá ele! Lá porque estão outros no poder, e tiram-me o emprego, que não era de confiança, não é motivo para dizer-me nomes.

— Mas Allan-Kardec...

Aqui, o diabo sorriu tristemente com a minha boca, levantou-se e foi à mesa, onde estavam as folhas do dia. Tirou uma e mostrou-me o anúncio de um medicamento novo, o rábano iodado, com esta declaração no alto, em letras grandes: “Não mais óleo de fígado de bacalhau”. E leu-me que o rábano curava todas as doenças que o óleo de fígado já não podia curar — pretensão de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alusão ao espiritismo. O que sei é que, antes de restituir-me o corpo, estendeu-me cordialmente a mão, e despedimo-nos como amigos velhos:

— Adeus, rábano!

— Adeus, fígado!
















domingo, 30 de novembro de 2008

Bala


A cada bala disparada fica evidente a insuficiência e a fragilidade da razão e da palavra. Mas a cada bala disparada também fica evidente a necessidade da razão e da palavra.

Tom Zé


Cara criativo e tal é o Tom Zé. Letras interessantes, música que nos nina e embala ao mesmo tempo. Performances inusitadas, além de perfeitamente executadas com a participação dos outros artistas de sua banda. No entanto, fiquei com a impressão, no show que assisti sexta passada no teatro da UFPE, de que ele exagera, entre uma música e outra, no uso de estereótipos para fazer rir o público. Estereótipos regionais. Não creio que isto fosse necessário. Ficam registrados aqui o elogio ao músico e a crítica ao homem.

sábado, 29 de novembro de 2008

oirjhgo

Toma a minha mão
E dá-me o teu olhar.
Tens no coração
Algo a germinar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Razão e Loucura


Sabe aquele cientista famoso que você admira bastante devido à sua grande capacidade de resolver problemas? Saiba que ele só é quem é graças à irracionalidade dos sonhos que lhe constituem. Não fossem os seus sonhos e seus desejos inconscientes ele não seria capaz de fazer o que faz. Se ele ficasse duas noites seguidas insone, isto é, sem se entregar à loucura enquanto dorme, não faria tudo aquilo que é tão incrível e que faz de você um fã do seu talento. Razão (mãe das ciências e da filosofia) e Loucura (mãe dos delírios, quer sãos, como as utopias, quer patológicos, como as neuroses) são inextrincáveis.

Novo paradigma das artes plásticas


Eu ouvi da boca de quem muito prezo e confio um relato que me deixou estarrecido. Eis a história. Uma fulaninha lá da UFPE (ressalto que a fulaninha é altamente instruída e de titulação à toda prova) andou dizendo que ouviu dizer e que estava convencida do seguinte: quem não consegue apreciar a foto de uma batida de carros com mais intensidade e prazer do que a foto de uma paisagem é insensível, estética e pleonasticamente falando. Quem não vê beleza em ferragens retorcidas manchadas de sangue é um ignorante em matéria de arte.
Nunca ouvi nada mais certo. Ao saber disso, disse para mim mesmo: "Eureca!". Tive aquela sensação de que era o que sempre pensava, mas que jamais pude enunciar. Depois desta idéia tão simples e profunda resolvi mudar radicalmente a minha vida. Como quero unir o útil ao agradável, estudarei para tornar-me policial rodoviário federal. Farei das rodovias brasileiras o maior museu de arte do mundo. Ou seria melhor eu me especializar no ramo dos ferros-velhos?
O que me incomoda quanto ao novo paradigma das artes plásticas é aquilo que diz respeito à autoria. Como definir o autor de uma obra em que dois ou mais carros colidem? Seria por intermédio das leis de trânsito? Seria mesmo o Código Nacional de Trânsito o novo cânone das artes plásticas? Mas seria um cânone brasileiro ou universal?
Por fim, sugiro como lema da novo paradigma das artes plásticas o seguinte: "faça você mesmo!". É um lema batido, é verdade, mas, como nunca, tão significativo e realizável. Só não sei ainda como deveríamos chamar este novo tipo de arte...
PS: dedico este texto à fulaninha de que falei e acho que lhe enviarei, por ocasião do Natal que se aproxima, um belíssimo cartão contendo a imagem que ilustra este escrito. Obra inimitável e que nem mesmo Picasso seria capaz de pari-la.

domingo, 23 de novembro de 2008

Bobo

Depois de morrer quero
Ser lembrado assim como
Um bobo. Sim, um mero
Bobo, mas um bobo que amou.

Cuidado


Uma mão, cinco dedos,
E um desejo imenso
De cuidar sem medo
E de modo intenso.

sábado, 22 de novembro de 2008

Inventário

Texto de autoria de meu pai em homenagem ao meu avô.


Inventário

Entre o pai e o filho
e entre aquele
e seu predecessor
além da genética e da cumplicidade
outra geração em andamento
e a intermitência dos réquiens.

Pai,
contemplar teu corpo frágil
envolto em linho roto
e distendido-quieto sobre madeira-sem-lei-nem-rei
muito me comoveu.

Pai,
tua presença remanesce
em mim empobrecida a título de saudade.

Pai,
o que esperar do teu legado
além do meu singular ser
pretenso arremedo dessa
reverenciada simploriedade?

Admirar-te já me satisfaz.

José Tadeu de Góes

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Meu desejo é a pilastra do futuro.
Mas, no que tange ao passado,
Não é sequer um pequeno furo:
Não há volta para relançar os dados.

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Meu desejo de ser outro
Só é menor que o de,
Por meio de um sopro,
Celebrar a vida numa ode...

A bolsa caiu

Segue abaixo um texto de um amigo muito querido (carinhosamente, chamo-o de Dodô) sobre a crise financeira internacional. Vale a pena ler. E quem quiser conhecer outros de seus textos pode acessar http://www.ceusemfronteiras.blogspot.com/


A bolsa caiu (segunda-feira, 17 de novembro de 2008)

Olá amigos que acompanham meu blog. Estive ausente nos últimos dias, pois estava bastante ocupado. Vocês sabem, pois assistem TV e lêem jornal, que o mundo está em crise. Hoje, oficialmente, o Japão admitiu estar em crise. Os japoneses perderam o costume de comprar uma televisão de 98 polegadas a cada ano. Agora, só comprarão de dois em dois anos. Nesse último fim de semana, praticamente não dormi, acompanhando o sobe e desce (mais desce do que sobe!) da bolsa de valores. Tentando me esquivar da crise que assola o sistema financeiro dos países do primeiro mundo, comprei ações das bolsas ditas periféricas. Meus amigos, não foi nada fácil! A bolsa de Macau fechou, na madrugada de sábado para domingo numa vertiginosa queda de 7.84% afetando minhas ações na Woo-Ping, empresa que fornece bamboos para os pandas chineses, normalmente lucrativa. Devido a essas intempéries, tive que me desfazer da metade das minhas terras na Suazilândia, vendendo parte da minha savana para uma empresa sulafricana de turismo.
O pior de tudo foi imaginar que enquanto muitas pessoas se divertiam em festas e eventos, eu tentava acompanhar, simultaneamente, o desenrolar das bolsas de Macau e Islamabad, através de uma rádio de Bangalore, que trata única e exclusivamente de assuntos ligados ao comércio internacional. Se não fosse esse tão importante meio de comunicação, com certeza absoluta, não restaria nem uma foto de zebra das minhas terras suazilandesas. A recessão continuará e quem não estiver engajado em defender seu patrimônio, como estou, poderá ficar à mingua do novo reinado de Genghis Khan que se aproxima. Sim, um império do oriente se aproxima mais uma vez e promete não aliviar com o ocidente. Logo agora, que o mundo judaico-cristão (que expressão batida) parece ter encontrado certa homogeneidade! A Europa, por exemplo, já não briga entre si e criou até uma União oficializada. Nos Estados Unidos, um negro foi eleito presidente e em breve os mexicanos poderão ser considerados cidadãos! Se até os Estados Unidos e o Japão estão em crise com a (pós) modernidade, que diremos nós pobres seres individuais, indefesos e tristes. O citibank vai fechar o halifax já embarcou dessa pra uma pior. Não existe crise sem mortes.
Meus amigos, sugiro que mantenham suas reservas de ouro e diamante para o ano de 2009, que promete ser o ponto culminante dessa crise. O barril de petróleo está por 55 dólares, uma ninharia! Ainda esta semana viajarei para Frankfurt para dar uma palestra para banqueiros estonianos e finlandeses, preocupados com a diminuição dos preços do pescado no Mar Báltico. Espero que nesses próximos dias o dólar se estabilize no Brasil, tenho grande confiança no meu amigo particular, Dr. Henrique Meirelles, que vai saber contornar a crise internacional sem mergulhar a nação emergente no buraco. Só volterei ao Recife no dia 26 de Outubro, precisamente para assistir o show de Tom Zé. Daqui pra lá, meu nome é trabalho! Os acionistas necessitam de minha especulação e minha agenda está cheia. Mas, prometo postar notícias dos lugares por onde andarei. Estou com a idéia de falar algo sobre a banda inglesa, Queen. Uma banda tão ímpar que o guitarrista Brian May foi o primeiro roqueiro da história a ser PhD em alguma coisa. Ele escreveu sobre a teoria do Big Bang. Isso é papo pra outra história. Falando em história, ninguém deu nome pra essa crise. O surgimento do universo é o Big Bang, a quebra da bolsa em 1929, ficou conhecida como o Crack de Nova Iorque. Aquí no Recife, a crise do Crack é outra e tem arrastado até fusquinha das ruas. Daqui pra Frankfurt vou propôr um nome oficial pra essa crise, quem sabe "Tsunami Financeira", "Aviões em Mannhattan", ou ainda "Nem Osama nem Obama, volta Bush de Lama". Daqui pra lá, espero que a minha fertilidade mental reapareça. Saudações alvirubras! 5x2. Pelas bandas dos Aflitos a crise se foi. Abraço.

Recife


Recife não é só ferro em brasa

A queimar e marcar a alma.

É também a dor quando passa:

O alívio, o sorriso e a calma.

A tautologia do nada

Nada nada no nada sem se afogar, em algum momento, na vacuidade...

Caminho


Meus passos seguem

Por uma terra árida,

Mas as lágrimas vertem

Sobre uma face impávida.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mulher


"Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça."


Frase de Kierkgaard que serve de epígrafe ao tomo 2 de O segundo sexo de Simone de Beauvoir

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Esperança

A esperança é uma estrela cadente...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sorriso

O sorriso é a língua franca entre os povos...

Entre o futuro e o presente

Entre o futuro incerto
E o presente indubitável,
Olho para o céu aberto
E desejo o mais improvável.

Não

O não é a via
Que faz voltar
O desejo que ia
Se realizar.

Música

A música é a impossibilidade do conceito.

Pensamento

De uma brisa para outra
Voa o meu pensamento:
Apreende, esquece; volta
E viaja ao sabor do vento.

Fé, Confiança, Crença etc.

Confiar em algo exige uma dose de possibilidades de que aquilo em que cremos não se realize como desejamos. Se há uma probabilidade muito grande de que o que esperamos ocorra, então não precisamos depositar muita confiança nesta questão. Por outro lado, se fortes indícios nos dizem que as chances de um evento se passar são remotas ou muito remotas, então precisamos crer muito mais naquilo que desejamos que aconteça. A fé é inversamente proporcional às probabilidades. Mas, por paradoxal que pareça, não seriam as probabilidades equivalentes às crenças?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Breve biografia do brasileiro que tem como objeto de estudo o camelo

Depois de ter incursionado pelas universidades européias, o brasileiro regressará para a universidade pública da qual esteve licenciado e onde trabalhará com os seus alunos as sutis, porém relevantes, diferenças entre o fenômeno do camelo e o camelo em si.

Uma vez no solo pátrio, o pesquisador brasileiro logo organizará um grupo de estudos em que, sob as suas rédeas, digo, sob a sua batuta, alunos se esforçarão para demonstrar astuciosamente que são tão obtusos quanto os camelos. O pesquisador, para incentivar-lhes, recomendará a árida leitura dos manuais nos quais sorverão a fórmula mágica segundo a qual poderão eles mesmos se transmutar em pesquisadores: a subserviência de um camelo para suportar longos períodos sem idéias originais acrescida do fardo de um fado que não lhes permitirá trafegar senão pelas dunas formadas pelo pó dos livros escritos pelos pais fundadores da disciplina a que se dedicam.

Na verdade, o pesquisador brasileiro costuma ir à Europa para adquirir a sua segunda corcova, já que sai do Brasil apenas com o grau de mestre. Os que vão em busca da terceira saliência no dorso, isto é, do pós-doutorado, retornam apenas com as corcovas um pouco mais robustas, o que já é uma vantagem, evidentemente.

Disso se deduz que o camelo é a um só tempo o objeto de estudo e o estudioso mesmo. Se se descurou até hoje desta verdade primeira foi em virtude da viciada maneira de se analisar o fenômeno da camelidade que não foi suficientemente dialética, ou seja, apenas um ato metodologicamente falho. Porém, ao atingir tal grau de auto-reflexividade, o pesquisador já teve de percorrer longos caminhos e obrigado se vê a aposentar-se. É agraciado, naturalmente. Penduram-lhe nas corcovas algumas medalhas e lhe recomendam camelinhos que dele ouvirão os segredos de cada deserto. Alguns desses camelinhos ocuparão lugar de destaque na caravana que segue de “sei lá” com destino para “só Deus sabe”. Outros camelinhos serão ressentidos e escreverão textos desta jaez.

A casa

Era uma casa linda
Em que duas pessoas
Sonhavam ainda
Sobre coisas boas.

A pergunta

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett(1799-1854)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

NÃO MATARÁS

O ENUNCIADO "não matarás" tem a força de uma máxima moral. É lícito concluir, no entanto, que se trata de algo que expresse uma verdade? Ou seria o caso de ter em mente que o valor desta máxima decorre da sua utilidade?
DE INÍCIO, afirmo que o princípio me parece indispensável às sociedades, muito embora, em casos especiais, ele possa e deva ser suspendido. De fato, poderiam objetar-me de que nestes casos ele já não seria mais um princípio ou uma máxima. Sim, seria uma máxima não observada "maximamente", mas ainda assim uma máxima. Em geral, é o que ocorre com freqüencia: uma lei (e a lei pretende ser universal) costuma prescrever os casos em que ela não deve ser observada.
ASSIM, se a máxima em questão é de fato indispensável, é porque ela resguardaria a vida da humanidade em geral e a minha própria em particular. Quer me parecer que este raciocínio é presente na mente de quem tem em alta conta o "não matarás". Todavia, o que mais me interessa agora é: o valor deste imperativo ético é fruto da sua utilidade para a humanidade ou se deve ao fato de que ele se encontra inscrito na essência e na ordem mais íntima de toda a realidade?
SE MATASSE alguém (e aqui não discuto, não por não a considerar relevante, a questão do especismo), eu estaria atentando contra a ordem humana ou contra o cosmos? Ao matar alguém firo a harmonia universal ou "apenas" maculo a paz e, portanto, transgrido uma das normas mais importantes da sociedade? É bem verdade que a primeira alternativa não exclui a segunda...
Em todo caso, não me parece haver qualquer indicativo indiscutível de que a própria ordem - quer "divina", quer cosmológica - impõe à humanidade o dever de não matar. Ao contrário disto, é perfeitamente razoável, ao se estudar o cosmos, inferir que o universo incita o humano a matar. Não é de modo algum uma aberração lógica de uma mente demente deduzir da observação dos corpos celestes que a violência é o substrato de toda a realidade. Contudo e felizmente esta inferência não é corriqueira...
O DEVER de não matar não tem sua origem num horizonte extra-humano. Ele não paira, inconcusso, sobre a cabeça da humanidade, mas precisamente em seu interior. Se se advoga o oposto, isto é, que o "não matarás" (assim como outras tantas máximas) foi herdado pelos homens sapientes a partir de algo que se encontra além da esfera humanóide, deve-se pôr à prova tal pressuposição, ao passo que o ônus de provar a gênese deste e doutros princípios na psiquê não chega a ser um fardo insuportável, se é que sequer pesa uma grama. Eis aqui uma verdade?
CONFESSO que não me incomodaria nem um pouco com a hipótese esdrúxula de a humanidade em peso proclamar as minhas últimas palavras como verdadeiras. O que está em questão, entretanto, é o seguinte: se se alude a um algo extra-humano para se fundamentar o "não matarás", deve-se aventar simultaneamente uma evidência em favor de tal idéia. Em contrapartida, se afirmo - e afirmo que afirmo mesmo - que as máximas morais nascem das idéias humanas só tenho que provar que não é plausível concebê-las com seguranga senão deste modo. Se não se me afigura, por insuficiência de indícios, que as máximas morais tenham sido dadivadas por Deus ou por qualquer outra criatura etérea aos primatas que jogam futebol, nada mais provável que concluir que o lugar no qual germinaram outro não foi senão a cabeça daqueles seres que quebram suas próprias cabeças em investigações de natureza semelhante a esta de que aqui trato.
À IDÉIA segundo a qual as máximas morais têm um DNA humano cheguei por eliminação de alternativas. Não a afirmaria categoricamente, embora o meu desejo de isto fazer se assemelhe ao desejo de quem pensa o contrário e afirma o contrário. Mas o que mais quero querer é que ninguém pense que negar a procedência extra-humana e, por conseguinte, o predicado "verdadeiro" (porquanto a sua procedência) aos princípios morais implique na assunção de um relativismo.
DE MODO ALGUM. Em vez disto, ratifico o caráter de máxima do "não matarás". Ressalto apenas que esta máxima já se sustenta sem que se tenha que apelar para algo transcendente. Não se trata, portanto, de discutir a sua verdade, mas a pertinência de tê-la como verdade humana, ou seja, criada e usada pelos homens e mulheres.

domingo, 2 de novembro de 2008

Reinaldo de Azevedo

O Reinaldo de Azevedo
Nada tem de rei.
É um arruinado azedo
Que à literatura nada fez.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Poesia Sem Título

A tua métrica torta me excita.
Só ela me sossega - a tua rima.
Tua dança me cansa e me nina.
Tua vida: minha poesia favorita.

02/03/2007

Poesia dedicada a Sheilinha

Estrelas

Queria das estrelas
Um dedinho de fala.
Ou ao menos vê-las
De perto, na sala.

Da vida, falar-lhes...
Servir-lhes um drink
Sondando-as, entre os goles,
“What do you think?”.

Mas que me diriam elas?
“Oh, fuck you, we really don’t care”
Ou “We’re here man! What’s up? Tell us”
Sei lá, mas me diriam coisa qualquer.

Sim, não me negariam palavras
Assim como as rosas.
Tocariam-me deveras,
Quer grosseiras ou generosas.

* s/d (sem data)

Dualismo

Quero nascer no reino da tua alma
E viver nos domínios do teu corpo.
Com gosto servir-te-ei com calma
Afagos que irão, em ti, cor pôr.

s/d

Partida

Eu saio como quem parte,
Assim, definitivamente. "Adeus",
Digo, e me vou. De mim, uma parte,
Contudo, fica com os meus.

s/d

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Metáfora

A tal da metáfora vivifica
Inclusive uma  pedra.
A vida em si toda rica
Da metáfora brota, medra.

Tempo


De relógio, sou ponteiro.

Fujo do que busco: um norte.

E nisto, meu tempo inteiro

É todo parto e todo morte.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Vida

Deitado sob as estrelas,
Subo até as núvens
Para despencar delas.
Vida: eternos vai-e-vens...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Choro

O choro de uma criança, geralmente, cai-nos como uma chuvinha rala. Ora engraçada, agradável até, ora incômoda, chata, aborrecedora, no máximo. O choro de um homem, todavia, deságua sobre nós como a mais assustadora tempestade: raios desconhecidos nos atravessam, trovões ensurdecedores nos apavoram.

Tempo

O tempo também é temperamental...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Augúrios

20/06/2008
Hoje à tarde cheguei em casa cabisbaixo por conta de um insucesso. Eis que, acima da porta, na parede, avisto uma criatura belíssima e que me alentou bastante: era uma esperança, uma esperança em minha porta...
21/06/2008
Ontem à noite fui comer uma pizza com Sheila e, no caminho de volta para casa, quando me perguntava se a esperança ainda estaria por sobre a porta de entrada para a sala do lugar onde vivo, deparei-me com um gato preto...
Ao acordar, abri a porta e verifiquei que a esperança pernoitou exatamente onde eu a havia visto ontem. Algumas horas depois, contudo, tive de enxotá-la a vassouradas porque ela se refestelava com as plantinhas que cultivamos no hall defronte à porta a que já aludi tantas vezes...
Enxotei a esperança a vassouradas da minha casa...
ps: a esperança ainda está viva; agora há pouco dei uma olhadela pela janela e vi que ela se farta de uma plantinha verde no jardim do pátio do condomínio em que moro...

sábado, 7 de junho de 2008

Voar por um horizonte belo



Voar por um horizonte belo

É com que sonha cada pessoa -

Imergir na amplidão e ser o elo

Para o inefável que aqui ressoa.


sexta-feira, 6 de junho de 2008

Divago devagar...

Divago devagar...
Em gotas, grão a grão,
Idéias sem par
Chegam, ficam e se vão...

...

- Abaixo a poesia!
- Fora com a metáfora!
Que vida, então, haveria
Sem Drummond e sem Cora?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Fado


São três horas da madrugada e faz muito frio; fantasmas rondam aleatoriamente; vozes se entrecortam e os sonhos sucumbem ao poder dos pesadelos mais reais. Dias sem fim cobram uma atitude final; medo e ânsia se irmanam numa congratulação fugaz; cada segundo agiganta a vacância e cada vazio plenifica o desespero. Enorme hiato entre o primeiro passinho e o grande e derradeiro salto: fado cumprido, fardo aliviado.

Decepção

É pisar num buraco
Confiando no chão.

O que é o Desejo?

É a ânsia do beijo,
Sob a lua na rua.
Lambidas no queixo
E na pele nua.

O Que é a Liberdade?

Liberdade é uma palavra
Que nos aprisiona.

Jeffersoul

EU SOU O EU QUE SOU;
QUE SOUBE SER UM...
... UMA NOTA DUM SOUL,
DUM SAMBA OU DUM ZUM ZUM ZUM

quinta-feira, 15 de maio de 2008

SENHORES E ESCRAVOS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DE HEGEL E DE NIETZSCHE

Hegel louva a filosofia cartesiana por ela ter aflorado a partir do reconhecimento da subjetividade, do cogito. Entretanto, o pensador alemão critica Descartes – e aqueles que seguem o seu caminho, como Kant e Fichte – por este não avançar na compreensão de que o ‘eu’, embora seja importantíssimo como pilar da reflexão filosófica, é incapaz de, sozinho, radicar em si a filosofia.

Hegel extrapola sem refutar completamente a subjetividade, marco característico da filosofia moderna. Ou seja, ele reconhece, como dissemos acima, a relevância do procedimento cartesiano de estabelecer o cogito como base segura para a reflexão filosófica. No entanto, Hegel vai mais além de Descartes e lança à luz a intersubjetividade como ponto central a partir do qual pode a reflexão filosófica ter um terreno efetivamente sólido para se desenvolver[1].

Hegel, ao suprassumir[2] a idéia de subjetividade como foi posta por Descartes, demonstra uma compreensão, em meu entendimento, extremamente mais acurada da realidade efetiva, pois o sujeito se move sempre entre outros sujeitos. Meu eu se anularia se se retirasse da relação com os outros ‘eus’. Então, o outro é, inegavelmente, conditio sine qua non do meu próprio eu. Cito, portanto, a frase lapidar de Lima Vaz que encerra em si, de modo sucinto, o que venho procurando apresentar: “não há subjetividade fora da intersubjetividade” [3].

Apresento ainda algumas palavras no tocante à insuficiência da subjetividade para fundamentar a reflexão filosófica. Insuficiência que se evidencia mais se a subjetividade se intensificar ao grau de tornar-se um solipsimo, risco mais que provável. Aludo, então, à Certeza Sensível (umas das primeiras figuras da consciência no caminho que ela percorre – a fenomenologia – experienciando-se a si mesma) para tentar provar a debilidade da subjetividade enquanto esteio do pensamento filosófico. Como Hegel o demonstra, a Certeza Sensível frustra-se ao perceber que outra Certeza Sensível também tem as suas verdades [4].

Penso que as implicações da reflexão hegeliana acerca da dificuldade da Certeza Sensível em lidar com o outro (com outra Certeza Sensível) vão bem mais além do mero âmbito epistemológico. Devemos pensar também a intersubjetividade a partir do viés ético. E é aqui precisamente que inicio o confronto entre o pensamento de Hegel com o de Nietzsche. Esboço, todavia, uma breve explanação da concepção nietzscheana de escravidão para, ao fim, abordar a dialética do senhor e do escravo de Hegel como contraponto a Nietzsche.

SENHORES E ESCRAVOS: A FILOSOFIA ARISTOCRÁTICA DE NIETZSCHE

Nietzsche notabiliza-se por suas teses, no mínimo, heterodoxas. Trata-se de podar alguns dos seus pensamentos e é justamente o que me proponho a fazer neste breve texto cujas idéias versam, como o título denuncia, sobre o conflito no campo da ética entre senhores e escravos [5], ou seja, no âmbito da intersubjetividade. [6]

É bem sabido por quem já se dedicou à leitura de alguma das obras de Nietzsche que ele tem uma grande simpatia pela organização aristocrática da sociedade. Senhores versus escravos: esta seria a divisão social perfeita. Ou seja, parece haver um telos em sua filosofia – inconfessável, é verdade – já que ela acena para o estabelecimento da referida dicotomia como meio eficaz contra o niilismo e em favor do fortalecimento da cultura. Deixo falar, portanto, o próprio Nietzsche:

Toda elevação do tipo ‘homem’ foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e diferenças de valor entre um e outro homem, e que necessita da escravidão em algum sentido. [7]

Não há qualquer possibilidade de equívoco: essas palavras não se contradizem em nenhum outro lugar da sua obra (contradição que é, aliás, muito comum quando Nietzsche aborda outros temas). Não há perspectivismo com relação à escravidão. Ela sempre aparece como indispensável para que a cultura adquira todo o seu vigor. Mais uma vez transcrevo as palavras do próprio Nietzsche a respeito desta questão:

[...] Nesse primeiro estágio, justiça é a boa vontade entre os homens de poder aproximadamente igual, de acomodar-se entre si, de ‘entender-se’ mediante um compromisso – e, com relação aos de menos poder, forçá-los a um compromisso entre si. [8]

No excerto acima citado, embora se refira especificamente à leitura que Nietzsche realizou da história, é possível perceber mais uma vez o seu claro posicionamento com relação à estruturação da sociedade, tanto é que – de um modo que poderia muito bem ser enunciado pela boca de Trasímaco – ele compreende a justiça como possuidora de “dois pesos e duas medidas”, a dependerem daqueles contra ou a favor de quem ela se dirige.

Entre os filósofos da modernidade o pensamento de Nietzsche com relação à escravidão é peculiar: ele lamenta o seu fim e preconiza o seu retorno. É bem verdade que Nietzsche não se refere à dominação econômica ou à dominação baseada em raças. No entanto, fica evidente que é absolutamente distinto o seu pensamento daquele que foi anteriormente desenvolvido por Hegel e isto o explicitaremos um pouco mais adiante.

Para tornar ainda mais clara a idéia de Nietzsche acerca da escravidão como característica crucial que a humanidade deve cultivar, remeto-a ao seu contexto original dentro da sua filosofia, qual seja, a vontade de poder.

A vontade de poder aparece na filosofia de Nietzsche como o fulcro de toda a realidade. Para ele, qualquer ente – orgânico ou não – é constituído por forças que querem expandir-se e assenhorear-se daquilo que as cerca. O caráter mais importante, por conseguinte, de tudo aquilo que é vivo é desejar a dominação. Entretanto, no entender de Nietzsche, alguns seres perdem as suas capacidades ativas, dominadoras, e deixam-se subsumir temporariamente por outros. É exatamente aqui que aparecem os antípodas senhores e escravos.

Conforme as extensas explanações realizadas por Nietzsche em Além do bem e do mal e na Genealogia da moral, senhores e escravos têm moralidades contrastantes, ou melhor, antagônicas. Em linhas gerais, os senhores são os criadores de valores; vêem-se como bons, fortes, livres e belos e chamam de maus àqueles que, na luta, contra eles não se lançam. Estes são fracos, os desprezíveis... Nietzsche diria, em uma palavra – escravos.

Os escravos – aqueles que abdicam do embate, da emulação direta – não agem, mas reagem: antes de intitularem-se a si mesmos de bons, atribuem o valor mal aos seus senhores, porquanto estes inflijam-lhes dores e sofrimentos. A reação dos escravos ocorre não no franco enfrentamento, no vis-à-vis, mas por meio de uma inversão dos valores nobres originais. Reação sutil, intelectualizada, que incute a culpa no espírito nobre para em seguida derrotá-lo. Reação astuciosa, capaz de soçobrar o ethos dos senhores ao criar uma realidade supra-sensível, o inferno, reservada aos seus “melhores” indivíduos.

Assim sendo, julgo ter apresentado, sucintamente, o pensamento de Nietzsche relativo à escravidão. Sigo adiante, portanto, de acordo com o plano previamente traçado: apresentarei, em suma, a dialética do senhor e do escravo de Hegel como contraponto à concepção nietzscheana da escravidão.

SENHORES E ESCRAVOS: UMA DIALÉTICA

Hegel observa a escravidão em toda a história da humanidade, mas observa também o seu paulatino esvaecimento: a história é a efetivação da idéia de liberdade. Liberdade que não pode ser abdicada.

É espantosamente belo o pensamento dialético: apreende o negativo como necessário. Neste sentido, escreve Kojève com respeito à dialética do senhor e do escravo:
O homem só atinge a autonomia verdadeira, a liberdade autêntica, depois de ter passado pela sujeição, depois de haver superado a angústia de morte pelo trabalho efetuado a serviço de outrem (que, para ele, encarna essa angústia). O trabalho libertador é pois necessariamente, à primeira vista, o trabalho forçado de um escravo que serve um senhor todo-poderoso, detentor de todo o poder real. [9]

O escravo reconhece-se a si mesmo como escravo porque na luta contra o seu adversário eximiu-se de ir até o fim: matar ou morrer. Preferiu preservar a sua vida, mas perdeu a sua liberdade devido à angústia da morte iminente em combate. Uma vez derrotado, percebe que deve servir ao vencedor, ao seu senhor. Os desejos deste tornam-se seus motivos de ocupação. Age em conformidade com o apetite do senhor. Contudo, um dia, o escravo tornar-se-á livre graças ao trabalho que o agrilhoa.

O escravo – reduzido à condição de besta por não ser reconhecido como homem pelo senhor – passa a perceber-se de um outro modo quando transforma a natureza por meio do trabalho. O trabalho devolve-lhe a possibilidade de fazer-se reconhecer enquanto homem, pois

Só depois de haver produzido um objeto artificial é que o homem é real e objetivamente algo mais e diferente de um Ser natural; e é apenas nesse produto real e objetivo que ele toma de fato consciência de sua realidade humana subjetiva. Portanto, é pelo trabalho que o homem é um Ser sobre-natural real e consciente de sua realidade; ao trabalhar ele é Espírito encarnado, é mundo histórico, é História objetivada. [10]

A relevância do trabalho como via pela qual a consciência escrava pode ascender de coisa ao patamar de humano é atestada também por Paulo Meneses: “Portanto, é no Trabalho, precisamente onde parecia exterior a si, que se descobre a si mesma e atinge sua verdade de ser-para-si”. [11] Isto quer dizer que o trabalho é suprassumido pelo escravo, que lhe dá um outro significado.

Desta suprassunção do e pelo trabalho emerge a humanidade do escravo, antes mero ser natural, coisa. Todavia, e, por incrível que pareça, o senhor é desmascarado pela dialética hegeliana. O que parecia incontestável é escrutinado inteligentemente e revela a verdade: o senhor tem consciência escrava. Conforme comenta, num outro texto, Paulo Meneses:
O senhor é uma potência destrutiva, porque pelo desejo consome o que o escravo produz e assim vive dependente dele. E como só chega à certeza de si mesmo através de uma consciência dependente, sua verdade é a consciência escrava, na medida em que vive no trabalho um processo de formação (Bildung): os papéis se invertem, possibilitando o reconhecimento mútuo. [12]

Reconhecimento mútuo, imagino eu, que faz avançar na sua efetivação a idéia de liberdade ao longo da história. Reconhecimento mútuo que foi bela e acertadamente batizado por Suzano de Aquino Guimarães como um segundo nascimento. [13]


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se a questão for escolher o pensamento de um dos filósofos no tocante à escravidão, opto, sem titubeios, por Hegel, pois ele não apenas se indigna contra a escravidão como ainda propõe a sua própria filosofia como meio de luta contra a escravidão e em favor da efetivação da idéia de liberdade.






[1] Cf. COSTA, Danilo Vaz-Curado Ribeiro de Menezes. Revista Eletrônica Estudos Hegelianos, ano 1, nº. 01. http://www.hegelbrasil.org/rev01f.htm
[2] O neologismo ‘suprassumir’ foi elaborado por Paulo Meneses, tradutor e um dos maiores especialistas em Hegel no Brasil. Suprassumir pretende verter para o nosso idioma a palavra alemã Aufhebung, a qual pode significar, a depender do contexto, três coisas distintas, a saber: negar, conservar ou elevar (qualitativamente). O filósofo alemão, no entanto, utiliza-a, de quando em vez, com as três acepções concomitantemente. Um dos exemplos que ele mesmo apresenta é o da flor: o botão é negado na flor, embora não completamente, porquanto algo dele se conserve na flor, a qual não é, todavia, apenas o que já estava no botão (já que há, inegavelmente, qualquer coisa nela de diferente com relação ao botão, novas qualidades emergiram). Quer dizer: o botão permanece e não permanece na flor, a flor é e não é o botão.
[3] Retirei esta frase de Lima Vaz do texto de Suzano de Aquino Guimarães intitulado Desejo e Liberdade: considerações sobre a Dialética do Reconhecimento na Fenomenologia do Espírito de Hegel. In Revista Eletrônica de Estudos Hegelianos, ano 2, nº. 03. http://www.hegelbrasil.org/rev03v.htm
[4] Cf . HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. RJ: Vozes, 1997.
[5] Na verdade, tentarei podar não alguns dos pensamentos de Nietzsche. Tal tarefa exigiria de mim muito mais do que, por ora, posso dar. Consagrarei, portanto, o meu texto à crítica do pensamento aristocrático nietzscheano e, para tanto, recorrerei à filosofia hegeliana.
[6] De fato, as críticas de Nieztsche ao cogito cartesiano não se aproximam da crítica dialética (que nega, conserva e eleva) de Hegel a Descartes. Mesmo assim, julguei pertinente começar este trabalho abordando este tema porque quis ressaltar o movimento que perfaz o pensamento hegeliano, cujo ponto de partida é o cogito que se transmudará em, conforme o professor Alfredo Moraes, cogitamus.
[7] NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 153.
[8] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 60.
[9] KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto: EDUERJ, 2002, p. 29.
[10] Idem, 2002, p. 28.
[11] MENESES, Paulo. Para ler a fenomenologia do espírito. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. 63.
[12] MENESES, Paulo. Hegel e a fenomenologia do espírito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 30 e 31.
[13] Cf. GUIMARÃES, Suzano de Aquino. Desejo e Liberdade: considerações sobre a Dialética do Reconhecimento na Fenomenologia do Espírito de Hegel. In Revista Eletrônica de Estudos Hegelianos, ano 2, nº. 03. http://www.hegelbrasil.org/rev03v.htm

Mito, filosofia e Religião

A transição de um saber (ou concepção) mitológico para um outro pretensamente mais rigoroso - o filosófico - costuma ser apresentado como uma ruptura. Contudo, acreditamos que as rupturas no âmbito do conhecimento não se esgotam completamente, ou seja, não eclodem abruptamente, mas se apresentam em vias de efetivação gradual ao longo do tempo. Ou seja, admitimos a idéia segundo a qual no campo do conhecimento não há rupturas, mas desdobramentos, isto é, processos que, ora mais lenta e ora mais rapidamente, engendram concepções mais elaboradas sobre os fenômenos cognoscíveis. Direcionaremos as nossas reflexões neste sentido para destacarmos o elo inquebrantável entre a filosofia e a ciência contemporânea.
Reconstituir em pormenores todo o trajeto pelo qual a razão se mostrou em sucessivas fases ao longo de nossa história é tarefa que escapa às nossas habilidades. Mesmo assim, é-nos lícito recompor, segundo a nossa concepção, as linhas gerais, dominantes, deste caminho tortuoso percorrido pela razão ocidental desde a mitologia grega até o aparecimento da ciência contemporânea.
Com efeito, julgamos que já há qualquer coisa no saber mitológico grego que, a despeito das inúmeras revoluções do saber, perpassam e, portanto, permanecem, mesmo que implicitamente, no modo de racionalizar dos cientistas e das pessoas em geral nos tempos hodiernos. Trata-se, em nosso entendimento, de um pensar metafísico. Naturalmente, o termo ‘metafísica’ encerra em si uma polissemia incrível. No caso específico ao qual nos referimos, isto é, num sentido muito estrito, cremos na existência de uma estrutura no pensamento humano que exige, por sua vez, a existência de um nexo causal a todo e qualquer fenômeno. Tal exigência da razão atravessa, ao que nos parece, toda a história do pensamento no ocidente. No entanto, por razões que extrapolam o nosso escopo, em algum momento as hipóteses usuais a partir das quais os fenômenos são compreendidos perdem o estatuto de aceitabilidade e, então, novas explicações passam a ser demandadas. A razão, todavia, jamais se exime de requerer fundamentos para os objetos do conhecimento.
É certamente esta a idéia de Aristóteles quanto à ubiqüidade de uma noção causal no pensamento. O estagirita tratou de sistematizar os modos pelos quais os seus predecessores inferiam a causalidade e, além disso, levou adiante a reflexão a este respeito ao sugerir uma idéia mais sofisticada no que tange às causas. Não é nosso propósito esboçar aqui um resumo desta teoria aristotélica, mas não titubeamos ao evocar o filósofo quando na Metafísica ele afirma que, em certo sentido, alguns dos poetas gregos também eram filósofos porquanto tenham esboçado reflexões a respeito das origens. De fato, podemos ler nos textos de Hesíodo e Homero, dentre outras tantas e fascinantes coisas, uma representação alegórica acerca da origem de todas as coisas. Ambos os poetas remetem os fundamentos da realidade aos deuses: lembremo-nos do título de uma das principais obras de Hesíodo – Teogonia. Toda a trama do nascimento e vida dos deuses servia-lhe de material para compreender as particularidades componentes do cosmos e do homem.
Um dos desdobramentos mais notáveis da noção de causa na história do pensamento se verificou na Grécia. Filósofos como Tales e Anaximandro não acharam suficientes as explicações alegóricas com relação às origens e à existência da realidade oferecidas pelos poetas gregos. Por esta razão, buscaram desenvolver reflexões mais sistemáticas e rigorosas sobre a gênese e as mudanças do universo. A senda pela qual se guiaram foi de outra natureza: tratava-se de uma forma de raciocínio que se esforçava por afugentar os resquícios mitológicos e, ao mesmo tempo, se orientava no terreno das observações da realidade e dos rigores da lógica (é fato que tanto o caráter empírico quanto o lógico eram ainda embrionários). Tales lobrigou na água o elemento primordial do cosmo, isto é, apercebeu-se de que este elemento era o sustentáculo de tudo que há. Não se conhece outro elemento, em sua opinião, mais universal do que a água e, além disso, tudo que é vivo dele depende diretamente. Estas e outras tantas reflexões – sempre subsidiadas por argumentos que não apelam para o fantástico, para o mitológico – foram sistematicamente erigidas pelo pensador de Mileto e o tornam, indubitavelmente, o primeiro físico, assim como o primeiro filósofo. Para se fazer justiça a Tales, temos de ressaltar, ainda, que, para alguns comentadores, sua concepção da causa primeva não era apenas material. A água da qual ele nos fala não era exatamente aquela que nos sacia a sede, mas um princípio, de certo modo, imaterial. Tales recorre ao mundo da matéria e dele retira um elemento que é, diríamos, transubstanciado para se tornar a fonte do ser, da realidade. O raciocínio incrivelmente sofisticado de Tales provoca os gregos, que assumem o seu legado e lhe continuam a obra. Os seus variados desdobramentos, no entanto, mantêm, por bastante tempo, a mesma estrutura.
Aludimos ao filósofo Tales para defender a tese segundo a qual há cadeias – elas não aprisionam, mas estabelecem a relação, o vínculo inescusável – entre as mais antigas narrações da mitologia grega, a filosofia e a ciência contemporânea. Tales é, em nossa opinião, devedor das fábulas alegóricas gregas: não é possível pensarmos na figura deste pensador sem pensarmos também na dos vates que propagavam pela Hélade as lendas e estórias concernentes aos deuses. Do mesmo modo, não conseguimos conceber o desenvolvimento das ciências moderna e contemporânea sem a existência da filosofia grega que lhe fornece um arcabouço conceitual e, por conseguinte, uma gama extensa de problemas. Tentaremos demonstrá-lo a seguir.
A ciência contemporânea é tão variegada que talvez devêssemos falar de ciências contemporâneas. Contudo, se mantivermos em mente toda esta heterogeneidade de objetos e de métodos que caracterizam os campos nos quais se desenvolvem as pesquisas científicas nos dias atuais, poderemos englobá-las sob uma designação única. Pedimos vênia para lançar mão de uma imagem alegórica para falarmos da ciência: consideremo-la, em geral, como uma árvore e cada ciência em particular como um ramo. Os ramos, por sua vez, se subdividem ou permitem o aparecimento de folhas, flores e frutos. Não obstante tamanha variedade, julgamos ver nisto tudo determinadas características em comum: qualquer que seja a ciência ela se assentará em concepções metafísicas. Demonstrar tal assertiva é tarefa hercúlea, mas nos ocuparemos, sinteticamente, de um dos ramos mais proeminentes do saber, a física.
Se recorrêssemos à física moderna teríamos exemplos numerosos para apresentarmos em favor da nossa tese que afirma a presença de um elemento metafísico no cerne da estrutura argumentativa de cientistas tais quais Copérnico e Galileu. Mas nos restringiremos à física contemporânea. Heisenberg, o cientista responsável pelo desenvolvimento da física quântica no começo do século XX admitia em seus livros uma relação entre o pensamento dos pré-socráticos e o dos físicos. Em ambos os casos os pensamentos operavam com a idéia de que há um substrato de toda a matéria, um elemento primordial no qual se ancoram todas as manifestações da realidade. Isto apenas já é suficiente para demonstrar o vinculo entre filosofia e ciência a que já tantas vezes temos nos referido. Portanto, se se estabelece a relação entre ciência e filosofia, estabelece-se, de pronto, a relação entre ciência e mitologia grega, já que esta é condição necessária para o surgimento da filosofia. Naturalmente, há outras relações e as apontaremos mais adiante.
As pesquisas na física quântica surpreendem-nos a todos. A cada dia apresentam um elemento mais profundo, ou originário, que sustenta a matéria. A tal ponto têm chegado estes estudos que a própria idéia de matéria é abalada. Partículas subatômicas que não são completamente compreendidas abrem terreno para um imenso campo de especulações metafísicas, ou seja, que levam para além da física.
Ademais, numa outra vertente da física contemporânea, temos como caso emblemático o do inglês Stephen Hawking. Na sua obra Uma Breve História do Tempo ele tenta reconstituir toda a trilha percorrida pela matéria para formar o universo tal qual ele se nos apresenta atualmente. Toda a cadeia argumentativa é norteada a partir da célebre teoria do Big Bang. A teoria afirma que toda a matéria do universo estava originalmente concentrada num único ponto menor que a cabeça de um alfinete. Após uma explosão o universo foi adquirindo as feições que nos são conhecidas. O autor, no entanto, admite a insuficiência da teoria para explicar como toda a matéria – e energia – pôde ser condensada neste ponto minúsculo (não seria este ponto o elemento originário, a arche?). Admite, inclusive, que a sua causa pode ter sido algo imaterial, quer dizer, Deus. Assim, de acordo com a teoria científica mais famosa do século XX a respeito da origem do universo, não se pode alijar completamente as hipóteses alegóricas e/ou metafísicas, já que nela há um limite explicativo acerca de um ponto crucial, a saber, a razão última, a causa eficiente de toda a realidade.
Boa parte da ciência contemporânea se eximiu da tarefa de procurar um sentido na realidade. Poucos cientistas contemporâneos têm tido tal preocupação – uma das exceções talvez seja a de Einstein, para quem Deus não joga dados com o universo. Tal assertiva do físico alemão parece querer dizer que as incertezas não são absolutas, mas que há possibilidade de conhecer a natureza da realidade, apreendendo-lhe o sentido. E outra não foi a ambição dos gregos que cogitavam sobre a raiz do cosmo, embora tenham se servido de outros instrumentos interpretativos: menos precisos, talvez, mas muito mais poéticos e belos que os gélidos cálculos matemáticos.

domingo, 16 de março de 2008

Ar-condicionado, o sopro da vida

Pra finalizar a publicação da série de antigos poemas que escrevi.


Ar-condicionado, o sopro da Vida

Arranha-céu:
Ar-condicionado,
Gravata, sorriso,
Gestos, sim senhor,
Tudo condicionado.
Repartição Pública:
Ar-condicionado.
Condiciona-se, convenciona-se.

A Figueira Triste

Uma poesia de 2004 em homenagem a uma velha figueira que havia lá no centro do Recife (faz tempo que não passo por lá, não sei ela ainda está de pé). Pense num texto rebuscado! Onde é que eu tava com a cabeça?


A FIGUEIRA TRISTE

Ave! Nossa Santa Árvore.
Hoje Figueira derradeira,
Solitária, mas Tu és il cuore
De Gaia, portanto, eia!

Eia! Revela-nos o ontem
E, nele, revela-Te frondosa
Em Tua copa, copa-paragem.
Eia, pois, Árvore copiosa.

Comprazem-se sob Tua sombra
As maltratadas turbas da cidade.
Vê, pois, como nos assombra
Imaginar-Te senil, pois és beldade.

Eia Figueira! Nunca foste solipsa.
Por isto o Teu pai Sol,
Solícito, jamais a Ti se eclipsa
E seus raios dadiva a Ti, só.

As nuvens, seres sem recato,
Devotam a Ti todo um ritual:
Estando em êxtase lá no alto
Pranteiam e vem temporal.

Somos todos tuas vestais,
Há uma, porém, precípua:
Prostra-se a Ti qual arrás,
É a terra a vestal conspícua.

Eia! Interjeição nossa!
Anima-Te, anima-nos!
Não és velha, és moça,
Anda, semeia-nos!


Jefferson Tadeu 23/06/2004

Poética da catarse sinestésica.

Poesia de 2003 (quando eu tinha um Deus).

Poética da catarse sinestésica.


Aquela poesia que desce
Ao menos à superfície
Do Intangível Ser, se desse,
Desejaria ser seu artífice.

Respirar Suas cores,
Lamber seus odores,
Aliviar minhas dores,
Curar meus torpores.

IX/VII/MMIII

Chegada



Chegue quando for a hora.
Chegue quando quiser.
Mas vê se não demora,
Cansei de ficar em pé.

Vida

Tu me vens entrementes –
Entre mentes tristes e alegres.
Pasmo e não creio que mentes
Quando me falas de milagres.

Amizade


Há mais de um ano e meio fiz um poema para o meu amor, a Sheilinha. Como ele é bem pessoal, não o publicarei por inteiro. Mas dele destaco um trecho que pode ser dito a qualquer um e qualquer uma, desde que seja dito com sinceridade:


Amizade é ponte entre almas
Sobre rio de risos e dores.

sábado, 15 de março de 2008

Quem sou?

Eu sou um raio
Que clareia a noite.
De bem alto caio
Sobre a tua sorte.

Eu sou a água
Que tu bebes.
Sou mar e as vagas
Em que te perdes.

As vias duma vida

Além do cajado, carregava uma trouxa de sentimentos. Olhava as pedras no caminho e não sabia se indicavam esperança ou desespero. Caminhava para longe, para qualquer lugar, e a poeira que subia até as suas narinas era ainda mais sufocante que o ar quente e seco de sempre das suas noites solitárias. Caminhava como quem se arrasta e, ao cair da noite, tinha como testemunha apenas as estrelas e a lua.
De repente percebeu bem diante de si uma explosão silenciosa cuja luminosidade deixou-o por um instante cego e também receoso. Não fugiu, todavia. Não havia naquela caatinga lugar para onde pudesse correr para se guardar do perigo ao qual, em princípio, presumiu estivesse exposto.
Não lhe restando muito o que fazer, resolveu fitar, então, a luz que àquela ocasião já minguara consideravelmente. Seus olhos se postaram fixamente num ponto pequenino como uma bola de gude. Como a luzinha não se movimentava resolveu entao tê-la entre os dedos.
Um ar leve como o da infância envolveu todo o seu corpo; um perfume de todas e de especificamente nenhuma das rosas inebriou a sua mente; o som dos mais belos aboios entrecortados pelo barulho das ondas que jamais vira e ladainhas de procissão conduziram seu corpo calejado por alamedas de eucaliptos. Caminhava ainda, portanto. Mas caminhava como quem baila, como quem vive.
Acordou. Sede, fome, cansaço. Calor, seca, lágrimas. Mais uma jornada: novos passos pelos mesmos espaços.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Filosofia

Alguns conhecidos meus, estudantes de filosofia, evidenciam-se mais pelo que não sabem do que pelo que presumem saber. E não se trata aqui de caso similar ao de Sócrates.
Quantas e quantas vezes não tive de ouvir comentários deselegantes proferidos por tais colegas quando se referiam ao filósofo A ou B estudado por algum outro aluno do curso de filosofia da UFPE? Essas invectivas, se submetidas a uma vivissecção, denotam, imediatamente, profundo desconhecimento daquilo de que se arvoram sabedores. Desconhecimento porque tendem, via de regra, a direcionar a sua energia contra os famigerados estereótipos dos pensadores: Nietzsche, o louco; Kant, o donzelo; Hegel, o padreco etc e etc. As piadinhas se proliferam como verme em carne putrefata.
Mais lamentável ainda é testemunhar tão abominável comportamento entre professores. Nada há de mais revoltante que ter de ouvir um doutor, como diria uma amiga, chafurdar no senso comum. Desonestidade intelectual é erva daninha que infelizmente grassa nalguns recantos do nosso departamento quando pessoas com titulação acadêmica elevada imprimem um selo sobre a obra de algum pensador e tentam apresentá-la a partir de então sempre sob um prisma reducionista qualquer.
Assim sendo, sem qualquer retórica proclamo a minha estultície. Mas também sem qualquer modéstia proclamo a minha vontade e o meu esforço para pensar, o que implica, necessariamente, pensar inclusive o que me desagrada por quaisquer que sejam os motivos. Prefiro que me conheçam pela meia dúzia de palavras plausíveis que possa dizer acerca de um filósofo e de três palavras arrazoadas que possa dizer por mim mesmo a notabilizar-me por meio de trocentas palavras canhestras e desreipetosas a respeito do pensamento de quem mal sei como se escreve o seu nome.

Amigo

Amigo é o lugar onde podemos repousar nossas dores e de onde retiramos todo ânimo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Uma gotinha


Quando eu olhava para uma pessoa idosa, com os seus cabelos já brancos, nunca imaginava que houvesse muitos conflitos perpassando a sua alma. Talvez porque a cor de neve da sua cabeça me fizesse, inconscientemente, relacioná-la à serenidade, à paz de espírito. Quanta ingenuidade!
Há alguns meses estive em João Pessoa (a cidade onde desejo morar) por ocasião de um congresso de filosofia. Durante dois dias, hospedei-me na casa da madrinha de um grande amigo. Na manhã em que deveria ir embora, após o café, levantei-me da mesa e fui à cozinha, lavar, como de costume, os pratos e talheres de que me utilizei enquanto comia. Naquela instante, apresentou-se na cozinha, para entabular conversa comigo, a senhora, tia da madrinha do meu amigo. Ela tinha mais de 90 anos de idade.
A primeira coisa que a senhora me disse foi: “Onde tem mulher, homem não trabalha na cozinha. Deixe esses pratos, meu filho”. Ao que, sorrindo, respondi-lhe: “Não se preocupe. É rapidinho e não me custa nada!”. Ela me retribuiu o sorriso e me ofertou também um segredo, ou melhor, uma queixa que, certamente, havia muito estava latente: “O filho da minha sobrinha nunca tira um prato da mesa”.
O que mais me impressionou na fala da senhora foi a sua expressão facial. Seu olhar inicial, ao se aproximar de mim, era de pura gentileza e cortesia, embora também fosse de resignação. Após o nosso breve diálogo, no entanto, modificara-se: eu me entristeci ao perceber dois olhos ainda mais resignados com a ordem do mundo, a despeito, é verdade, de haver uma gota de indignação no seu olhar, mas uma indignação que parecia se envergonhar por existir. Uma gota de indignação, todavia, foi suficiente para que eu percebesse que a cabecinha branca daquela senhora era um verdadeiro campo de batalha. Afinal, não pode haver paz para as(os) vencidas(os).
Ao refletir sobre a cena, veio-me ao meu espírito uma gota de esperança, pois para que uma tempestade aconteça sempre há de cair uma primeira gota. E, para quem quer agir, não importa o tempo já percorrido ou que ainda terá de trilhar, porque o que está à mão é sempre o presente, que nada é senão uma gotinha.